Um menino nasceu com o dom de ser ouvido.
Não era feitiçaria: quando dizia “queria tanto aquela bola”, a bola lhe chegava por mãos terceiras; quando dizia “seria bom uma lição naquele menino teimoso”, alguém a aplicava. Logo aprendeu que nada precisava fazer — bastava insinuar.
Cresceu, e com ele cresceu o dom. Poucos resistiam à sua voz; os que resistiam, acabavam punidos por outros. Ele apenas dizia, como quem não quer nada, e o mundo obedecia.
Um dia, murmurou — jurava que por desatenção — que seria bom se os desobedientes morressem. No mesmo dia, houve um massacre.
Chamaram-no a julgamento. Sorriu: “Não fui eu. Foram eles. Eu só disse.”
O júri não contestou. Se palavra não é ação, não havia na Lei pena para o dom de se fazer ouvido.
Tão logo saiu — sem maldade, ele jurava — resmungou “Que bom seria um mundo… sem júri”.
Jéssica Marcon Dalcol
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