Palavras são Inocentes (miniconto)

Um menino nasceu com o dom de ser ouvido.

Não era feitiçaria: quando dizia “queria tanto aquela bola”, a bola lhe chegava por mãos terceiras; quando dizia “seria bom uma lição naquele menino teimoso”, alguém a aplicava. Logo aprendeu que nada precisava fazer — bastava insinuar.

Cresceu, e com ele cresceu o dom. Poucos resistiam à sua voz; os que resistiam, acabavam punidos por outros. Ele apenas dizia, como quem não quer nada, e o mundo obedecia.

Um dia, murmurou — jurava que por desatenção — que seria bom se os desobedientes morressem. No mesmo dia, houve um massacre.

Chamaram-no a julgamento. Sorriu: “Não fui eu. Foram eles. Eu só disse.”

O júri não contestou. Se palavra não é ação, não havia na Lei pena para o dom de se fazer ouvido.

Tão logo saiu — sem maldade, ele jurava — resmungou “Que bom seria um mundo… sem júri”.

Jéssica Marcon Dalcol

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Comentários

2 respostas a “Palavras são Inocentes (miniconto)”

  1. […] De certo deverão encontrar um consenso jurídico. Mas o mundo não é jurídico. E é sobre o mundo que quero me debruçar. É sobre isso que escrevi em meu conto Palavras são inocentes. […]

  2. […] Já Kafka influencia muito meus microcontos. É evidente o recurso do absurdo no microconto “Palavras são Inocentes”. […]

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