O Velho e o Drone (miniconto)

Um homem muito, muito velho, não conseguia mais falar. Ganhou um drone de última geração. Presente de seus bisnetos, disseram que o robô voador era programado para buscar o que quer que o velho desejasse, por meio da leitura de seus pensamentos. O velhinho não teria mais dificuldades para pedir água ou pegar o controle remoto da televisão. 

No entanto, a tataraneta, sempre sentada aos pés de seu tataravô, estranhou: Em vez de buscar coisas pela casa, escapava furtivo pela janela. Sumia por vários dias e, quando finalmente voltava, trazia coisas que aborreciam a empregada.

— Esse besouro metálico inútil fica trazendo lixo pra dentro de casa!

Primeiro foi um saquinho cheio de tampinhas enferrujadas, daquelas muito, muito antigas. Ela jogou fora. Veio uma medalhinha de latão amassada; depois um pião de madeira podre cheio de lascas e cupins; e até um velho lampião quebrado. Tudo para o lixo.

Na última vez que a tataraneta viu o drone fugir pela janela, foi o dia em que o tataravô morreu. A tataraneta esperou e esperou, desejando saber qual seria a última encomenda. Mas o drone nunca voltou.

Se tivessem procurado, teriam visto o besouro metálico lutando, sem descanso, para erguer do chão uma casinha de pau a pique perdida no sertão, muito, muito distante.

Jéssica Marcon Dalcol


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