Em meus estudos, venho me aprofundando nos fundamentos literários. Esbarrei, então, na diferenciação entre Realismo Fantástico e Realismo Mágico.
Escrevo aqui minhas impressões, sem intuito de ser professoral. Este papel delego aos especialistas. Aqui, trata-se de exercício de uma aspirante à escritora e suas impressões.
Não são a mesma coisa
Por muito tempo eu me enganei acreditando que Realismo Mágico e Realismo Fantástico eram a mesma coisa.
Soube que não, quando aprofundei meus estudos em autores são fundamentais a minha escrita: Kafka, Borges e Mia Couto.
É bastante evidente que todos os três imbuem suas histórias de um tipo de magia e, ao mesmo tempo, realismo.
Todavia, é igualmente evidente que o fazem de formas totalmente diferentes.
E foi querendo entender essas diferenças que acabei por descobrir a diferenciação dos dois gêneros. Com acréscimo de mais um outro.
A hesitação versus a aceitação sem dúvidas
Entendo que a diferenciação entre os gêneros está em uma palavra: hesitação.
- O leitor e os personagens hesitam diante do absurdo, ainda que se manifeste em circunstâncias realistas?
- Ou o absurdo é aceito com naturalidade, sem qualquer dúvida, como parte da realidade?
O realismo fantástico hesita. O realismo mágico simplesmente aceita, mas não por qualquer motivo: aceita porque constrói um mundo no qual o mágico corresponde a crenças, mitos e tradições populares.
Realismo mágico: a magia integra a cosmovisão coletiva
O realismo mágico, originário da América Latina do século XX, naturaliza o absurdo por meio de tradições, mitos, oralidades, religiosidades.
A cosmovisão coletiva do universo criado está intrinsicamente ancorada nesses fenômenos sociais, de modo que o sobrenatural não é sobrenatural; é parte do funcionamento do mundo.
Veja por exemplo “Terra Sonâmbula” de Mia Couto: os fantasmas nascem da oralidade e do trauma da guerra.
Em “Cem Anos de Solidão” de Garcia Márquez: A chuva de flores e a levitação simplesmente são aceitos pelo narrador e personagens em decorrência de mitos e tradições populares.
Realismo fantástico: o fantástico testa o limite da dúvida
O realismo fantástico, ainda que possa convencer o leitor e/ou personagens de que o absurdo de fato aconteceu, é carregado de hesitação.
Paira a dúvida sobre a origem do acontecimento: Tem uma causa natural (uma ilusão, um sonho, uma doença, um engano)? Ou é sobrenatural?
Ou ainda: é uma metáfora? Uma alegoria? Um exercício mental?
Existe ambiguidade entre o real e o fantástico.
Ainda que o universo criado seja inteiramente convincente com regras que o sustentam, essas regras não são fundamentadas em tradições sociais, e sim no imaginário do autor.
Veja Borges, por exemplo:
Seus contos são criados por meio de paradoxos intelectuais – como infinitos, labirintos ou objetivos impossíveis.
“A Biblioteca de Babel”: uma biblioteca que contem tudo que já foi ou poderia ser escrito.
“O aleph”: um ponto que contém tudo que existe.
“As Ruínas Circulares”: O homem que ao criar outro homem, descobre que ele próprio foi criação.
Todos os contos criam situações fantásticas, porém, fortemente embasadas em questões filosóficas.
O leitor hesita: Isso pode mesmo ocorrer? Sim, ele se convence. Pode. Mas é convencido como uma forma de alegoria ou metáfora.
O tempo todo permanece a dúvida (ou o incômodo), pois parte do fantástico está em estressar até o limite esta dúvida.
Há mais: o Absurdismo
Mas onde fica Kafka?
Evidentemente, não poderia enquadrá-lo como Realismo Mágico.
No entanto, dentro do Realismo Fantástico, ele parece ter um algo mais. Pois suas obras – como “A Metamorfose” e “O Processo” – levam o leitor ao desconforto e estranhamento não só pelo estressamento da dúvida, mas do sentido de existir.
Entra aqui o Absurdismo.
Kafka cria situações desproporcionais que, no limite, sempre revelam a mesma essência: a busca de qualquer sentido para a vida é um caminho de frustração.
Impacto na minha escrita
Comecei, então, a refletir como propostas tão diferentes puderam impactar minha escrita de diferentes formas.
Em meu livro “A Asa Decepada da Borboleta” (disponível na Amazon), cada capítulo mostra a visão de um personagem sobre Inês e seu assassinato. O leitor constrói o que aconteceu e quem realmente foi ela por meio de um mosaico.
Contudo, cada capítulo é construído numa espécie de labirinto. A Prisão do Espelho Negro, a Bíblia da Morta, a Biblioteca dos Finais Iguais, etc.
É evidente a influência de Borges.
Entretanto, há ecos de realismo mágico – pois esses labirintos não são sustentados por questões metafísicas, mas sociais. A misoginia, a fé e racismo religioso, a violência doméstica, a sororidade. Então, em certa medida, enxergo um tanto da influência do realismo mágico, com tons contemporâneos.
Já Kafka influencia muito meus microcontos. É evidente o recurso do absurdo no microconto “Palavras são Inocentes”.
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