Pergunto: Palavras sempre são inocentes?
Não sou dona da verdade, nem especialista em política ou filosofia. Mas sou alguém que se recusa a aceitar respostas fáceis.
Perguntas com respostas certas demais me incomodam. Me soam como trapaça. Ou fuga. Talvez os dois.
Então, quando alguém me diz: “Toda palavra é inocente, pois não é ação”, acende em mim uma faísca.
A faísca da câmara da gás: Ela acendeu quando a primeira câmara nazista foi ligada ou quando Hitler publicou Mein Kampf? Quando fez seu primeiro discurso público?
A navalha: O massacre de Ruanda começou com a primeira facada ou quando as rádios começaram a chamar os tutsis de baratas?
Não trago as respostas, mas o incômodo. É confortável não pensar sobre isso. O não pensar torna a palavra vazia de poder e a liberdade de expressão um senso comum.
Este debate renasce com o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado. Sua defesa argumenta: Houve apenas especulações e debates. Isso não configura ação e, portanto, não é suficiente para se imputar culpa.
De certo deverão encontrar um consenso jurídico. Mas o mundo não é jurídico. E é sobre o mundo que quero me debruçar. É sobre isso que escrevi em meu conto Palavras são inocentes.
O senso comum: palavra não é ação
O senso comum nos diz que palavras são apenas palavras. São diferentes de ação. O dizer é inocente, e só o fazer é culpável.
Mas não seria isso circunstancial?
Há situações nas quais a intenção (palavra) não é suficiente para mexer no mundo. Mas e quando as circunstâncias dão à intenção (palavra) o poder performativo?
Quando digo que quero uma maçã, o mundo não se altera. Mas quando um governante diz que deseja poder, o mundo inteiro se move.
Afinal, prometer é agir. Ordenar é agir. Silenciar é agir. Fingir que não disse também é agir.
A palavra pode ser só caracteres. Mas também pode ser centelha que incendeia o mundo.
O paradoxo liberal da liberdade de expressão
Sou afeita do conceito de liberdade. Afinal, alguém que escrever quer liberdade para escrever.
Mas não desejo qualquer liberdade. Me sentiria irresponsável, ou egoísta, se o desejasse.
Ressoa em mim a ideia de John Stuart Mill: a liberdade de expressão é central e deve ser defendida a todo custo. Com uma limitação: o dano ao outro.
Mill sabia: palavras são livres, mas nunca inofensivas.
Não quero álibis
Há quem dirá: Você é escritora! Dizer que palavras são passíveis de culpa é cavar sua própria cova.
Responde: escrevo exatamente porque palavras tem poder de ação.
Achar que palavras nunca são ação é só um álibi. Um álibi para não encarar o peso do que dizemos.
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