Categoria: Textos autorais

  • A Motivação do Crime

    Por algum motivo, minha irmã tinha um boneco em MDF em tamanho real do integrante de uma boy band. Por algum motivo, minha mãe me incentivou a treinar escada em nosso prédio ­­­- com seus 17 andares é excelente substituto de cardio em dias de chuva. Por algum outro motivo, minha mãe decidiu descartar o…

  • Justiça Divina

    O que aconteceu?, perguntou o ortopedista. Respondi: desacato divino. Desinteressado em confissões pecaminosas, restringiu-se a pedir um raio x. Consumado: debaixo do osso do meu calcanhar nascera um bico ósseo. Esporão calcâneo é o nome científico, mas dada a sensação de estar sempre a pisar num prego, eu chamaria de autoflagelo biológico. Lembro do fatídico…

  • Onisciência Adulterada

    No céu o jovem perguntou a Deus porque o levou tão cedo. — Repreensão por minhas bebedeiras? O Senhor lhe explicou que não foi bem sua vontade: O produtor de vodca adulterou a bebida. — Então foi culpa do adulterador de bebidas? O Altíssimo disse que não exatamente. O infrator de bebidas comprou etanol adulterado…

  • O Aluno Impossível

    No anúncio do quadro: “Procuro professor para aluno com afantasia”. Rabiscado a mão sobre “professor”, pairava, improvisado: “de desenho”. Caligrafia tortuosa em caneta seca vermelha — contra o equilíbrio maquinal dos caracteres impressos. Ela riu. Quis conhecer a pessoa que se definia pelo que não podia, sem enxergar a poesia que já fazia no acidental.…

  • Alergia

    Acordou em crise. Sempre que mentia, espirrava. O psiquiatra ofereceu dois caminhos. Curou-se. Entre a primeira opção — psicoterapia — escolheu a segunda: lorotadina. Jessica Marcon Dalcol

  • Lâmpada para Quem Não Quer Ver

    A lâmpada do quarto queimou. Pleno domingo chuvoso, incomodou-se com o mero pensamento: subir a escada com sua imensa barriga. Cresceu em irritação; não encontrou lâmpada nova na despensa. Cogitou ficar no escuro, mas só tinha a companhia dos livros, cujo único defeito é a fome de luz. Preciso de uma lâmpada, disse à atendente,…

  • O Canto do Homem-Cigarra

    A carapaça da cigarra repousava no tronco. As costas abertas na promessa de nova fase. O corpo rígido – tão científico que soa poético: exoesqueleto – não comportava o crescimento. Se rachou para o adulto caber no mundo. Daquela pele abandonada, no entanto, nasceu algo estranho: um homem que cantava o tempo. Sabe-se que a…

  • Quase Amor (miniconto)

    — Gosto muito de você. Ela sorriu, aliviada. — Porém… Jéssica Marcon Dalcol

  • As Verdades de meu Pai (crônica)

    Papai dizia à minha irmã que cada pessoa faz xixi de uma cor. Azul, verde, lilás — arco-íris a vazar dos corpos. Ela acreditou até o dia em que levou um tabefe. Ele também ensinara a falar pão “cascudo”; afinal, “pão francês” é demasiado blasé. A amiguinha, excessivamente literal, não perdoou: em vez de pão,…

  • Profeta S/A (miniconto)

    Nasceu com dom da profecia. No século XXI, não havia futuro em Céu ou Inferno. Virou CEO de uma gigante da tecnologia. Jéssica Marcon Dalcol