O Aluno Impossível

No anúncio do quadro: “Procuro professor para aluno com afantasia”. Rabiscado a mão sobre “professor”, pairava, improvisado: “de desenho”. Caligrafia tortuosa em caneta seca vermelha — contra o equilíbrio maquinal dos caracteres impressos. Ela riu. Quis conhecer a pessoa que se definia pelo que não podia, sem enxergar a poesia que já fazia no acidental. Impetuosa, todo aluno lhe era uma missão. Marchou, napoleônica.

É professora?, ele perguntou. Sim, ela respondeu pomba estufada. O que quer desenhar?, Uma casa amarela. Ela buscou no Google uma imagem adequada e pôs-se a declamar ângulos e perspectiva shakespeareanos; cores, luz e sombra conjurados por fada reluzente.

Preciso desenhar sem referência, ele interrompeu, sem enxergar a magia pomposa. Mediu nele os olhos brilhantes de uma fome ansiosa. Certo, vamos então pela descrição… Como você descreve a casa amarela?, Não consigo, tenho afantasia, Eu sei. Não consegue visualizar mentalmente uma casa amarela, mas consegue descrever a porta, a janela, o telhado. Daremos forma às palavras!, tanta empolgação, derrubou o café sobre as folhas.

Ele suspirou. Emanou dele um cansaço carregado de desolação. O brilho anuviado por uma folha d’água, que não deixou escorrer.

Preciso lembrar…, ele confessou baixinho, Lembrar de quê?, A casa amarela da vovó, Podemos ir até ela para ver, ela já pegava as chaves do carro. Ela morreu, foi demolida. Soltou as chaves e encolheu as asinhas esperiquitadas. Meus… sentimentos. Não tem fotos?, Não, Nenhuma?, Nem física nem mental.

Buscou em seu caldeirão artifícios de alegria, mas conseguiu apenas dizer: Quer desenhá-la para guardar?, Como se não consigo visualizar?

Os ombros embotaram como a memória que lhe escapava.

De volta em casa, a professora deitou-se com sua habitual xícara de chá. Seria aquele seu primeiro fracasso? Quão complexa é a mente… O rosto contorcido num bico de pato contrariado. Consegue até fazer a camomila ter gosto amargo de frustração. Se a desenhasse, retorceria as linhas e estamparia sombras profundas. A xícara, injustiçada, lhe sorriu. O bico retribuiu.

No novo dia, bateu a porta dele. Vamos sair!, Para onde?, ele perguntou, assombrado, Que gosto tinha a casa da sua vó?, Ahn? Talvez… Sonho de goiaba, À padaria então!, anunciou como só consegue quem é sobressaltado por epifania às cinco da manhã.

Buscaram o sabor na padaria. O cheiro na Igreja do bairro. A textura no brechó de peças de tricot. O som da tv ligada num cômodo vazio enquanto na panela frigem bolinhos de arroz. E o amarelo… Este foi difícil. Tentaram o fusca antigo queimado, a margarida do canteiro. Ele só se satisfez com o início do pôr do sol.

Agora pinte, O quê?, A casa amarela que você sentiu.

Ao final, os olhos brilharam. Desta vez, estrelas satisfeitas. Ela, Quixote feliz em derrotar o moinho de vento.

Entre tantas missões, nunca se dera conta de que professor ensina a ver o invisível.

Jéssica Marcon Dalcol


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