Lâmpada para Quem Não Quer Ver

A lâmpada do quarto queimou. Pleno domingo chuvoso, incomodou-se com o mero pensamento: subir a escada com sua imensa barriga. Cresceu em irritação; não encontrou lâmpada nova na despensa. Cogitou ficar no escuro, mas só tinha a companhia dos livros, cujo único defeito é a fome de luz.

Preciso de uma lâmpada, disse à atendente, Pra quê, senhora? Temos muitos modelos, Para iluminar, Iluminar o quê, exatamente? A mente? O espírito? O coração?, Está me confundindo, Que seja, luz para confusão, Não disse que sou confusa!, Oh, para negação, então, Não estou em negação!, Ah sim — de certo a luz de negação. Aqui está!, Ilumina? Me Basta, desistiu, cansada.

Quis chutar a escada; se contentou em amaldiçoar Thomas Edison e todos os homens com filamentos que desgastam. Do alto, girou a lâmpada no bocal. Fez-se luz e, dela, as sombras.

Você não nos quis, ainda assim ele não voltou, disse uma, Mas de certo escolheu um bom cirurgião, ficamos mais harmônicas, disse a outra, Quem são?, perguntou, Ora, suas orelhas! Contemplou na parede sua silhueta, com os antigos abanos. Ao menos a da barriga não foi embora, disse a Uma, Mas sabe, ela não escapará de nós, disse a Outra, Que querem dizer?, Lóbulos grandes são gene dominante, Uma, Soltos também, Outra, Calem-se!, Mas de certo será uma menina muito linda!, compadeceu-se a Uma, Você também já era linda, sabe?, adoçou a Outra.

Desrosqueou e enfim, cedeu: chutou.

Voltou, senhora?, perguntou a atendente, Quero trocar, Não funcionou?

Não.

Jéssica Marcon Dalcol


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