Reflexões sobre “O Senhor das Moscas” (livro)

Pergunto: A violência é consequência da ausência de Lei ou é a própria fundação da Lei?

Ler O Senhor das Moscas de William Golding é um mergulho em reflexões desconcertantes sobre os fundamentos de uma civilização.

A história mostra como um grupo de meninos sobrevivem presos em uma ilha deserta. Sem adultos, sem regras.

A promessa de liberdade logo se transforme em tirania, violência e medo.

Dilemas inescapáveis

A história é instigante, e pode ser lida como uma aventura com tom distopico. Contudo, é mais que isso. Incita questões como:

  • A violência é consequência da ausência de Lei ou é a própria fundação da Lei?
  • As regras de poder existem para ordem ou para a dominação?
  • Como e quem escolhe a autoridade?
  • A autoridade pode punir. Mas quem pode punir a autoridade?

Os símbolos do poder

O enredo, a meu ver, mostra a construção gradual das regras de poder para a vida em comunidade, em princípio, motivadas pela sobrevivência e prazer.

Essas regras nascem a partir de símbolos:

  • Quem tem a concha, pode falar.
  • Quem tem a faca, pode caçar.
  • Quem pinta o rosto, é da tribo.

No entanto, as regras não podem apenas existir. Precisam ser obedecidas. E essa obediência é também construída, primeiro pela retaliação sutil (o isolamento ou abandono do desobediente) até à violência física.

Ecos da Filosofia Política

O Senhor das Moscas faz, direta ou indiretamente, referência a debates clássicos da Filosofia Política.

Não sou especialista nas áreas, por isso cito aqui aquelas obras que conheço, não com intuito de esgotar o tema, mas de abrir o debate.

A referência ao Leviatã de Thomas Hobbes é evidente.

Pode-se interpretar a ilha como o espaço do estado da Natureza sujeita aos impulsos destrutivos de alguns. A ausência da Lei leva à violência.

Contudo, o próprio livro mostra outro lado da moeda. Pois a mesma autoridade que cria ordem, pode crescer com o contrapeso do autoritarismo.

Nesse sentido, penso imediatamente em Necropolítica de Achille Mbembe.

O poder se legitima pela capacidade de violência: a deliberação sobre quem pode viver e quem deve morrer. No livro: as ameaças, o sacrifício ritual e, por fim, a normalização da violência num sistema de regras.

De certo há paralelos há outros filósofos: Locke, Foucault, outros. Mas me restrinjo a comentar os que conheço.

Reflexão sobre a escrita:

O olhar de fora, nunca de dentro

O foco de William Golding nesses debates é traduzido na forma de sua escrita.

A narração é seca é inteiramente focada no enredo, sem adentrar na psicologia dos personagens. Conhecemos cada um por meio do relato de suas ações e falas, e tão só.

A secura psicológica, a meu ver, dá ainda mais profundidade à obra.

O leitor não tem certeza do que cada personagem pensa, apenas interpreta.

E não é exatamente o processo de construção social de uma comunidade? Se pensarmos na Filosofia da Mente, uma das dificuldades inerente à vida em grupo é nunca ter certeza de que o outro pensa – sequer que está pensando!

A interpretação do outro ocorre sempre pelo olhar de fora, nunca de dentro.

E desta cisão, nasce a possibilidade de manipulação e distorção.


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