Escrevo este minconto na sala de espera do hospital — ou talvez na fila, na ilha, na guerra.
O arqueologo entrou na lendária câmara. Há tempos a procurava. Diziam ser o espaço que tudo une. Onde os seres, em suas diferenças, comungam.
Esperava encontrar uma igreja, algum culto religioso. Quem sabe o congresso de um governo democrático.
Mas não.
Era uma sala de medicação do hospital.
Uma mulher curvada em cólicas, amparada pelo marido; um velho com tez latente em enxaqueca, vigiado pelo filho; o jovem encolhido sobre a vesícula em pedras.
Riu da ideia. Pensava que a câmara que tudo une seria feita de momentos de fé, amor ou esperança — mas diante dele estava apenas a câmara da dipirona.
Na luz fria piscando e no chão de cândida, o tempo dobrou-se.
Agora era o campo de refugiados; eram corpos raquíticos na fila da sopa; eram moradores ilhados das enchentes; era o povo em armas contra a invasão; eram sua mãe de preto e seus irmãos abraçados aos pés do caixão de seu pai.
Fugiu, em silêncio, decidido a nunca revelar o paradeiro da descoberta.
Em seu diário, anotou apenas: “Que nunca se descubra o paradeiro da câmara. Pois se a dor é o vínculo inevitável entre os homens, bastará fabricá-la para governar o mundo”.
Jéssica Marcon Dalcol
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