Reflexões sobre “O Velho e o Mar” (livro)

Não é à toa que Hemingway foi um dos maiores escritores modernos. Compartilho aqui minhas impressões sobre “O Velho e o Mar”

O Velho e o Mar, à primeira vista, é um pequeno romance — quase um conto. Porém, há tanto neste clássico de Hemingway, que chego a ficar sem ar.

Hemingway não conta: mostra

Hemingway é reconhecido por sua escrita direta e precisa. Ele nunca explica o que os personagens sentem ou pensam. Ele mostra. Um mostrar simplório, seco, nada cinematográfico.

Alguns exemplos:

No início, precisa apresentar quem é o Velho. Um pescador de longa data; afligido por muitos dias sem pesca; solitário, mas de coração grande e sonhador.

Aprendemos tudo isso com pouquíssimos adjetivos. Assistimos cada uma dessas características por meio da cena inicial do Velho e sua interação com sua única companhia: o Garoto.

Os sinais do mal tempo de pescaria:

“A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente”.

O espírito determinado, apesar da velhice:

“Tudo que nele existia era velho, com exceção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis”.

A solidão profunda:

“Nas paredes castanhas do duro guano viam-se uma imagem colorida do Sagrado Coração de Jesus e uma outra da Virgem de Cobre. Ambas eram relíquias de sua mulher. Em tempos, houvera na parede uma foto da esposa, mas ele a tinha tirado porque se sentia muito só ao olhá-la todos os dias; agora estava escondida numa prateleira, debaixo de sua camisa lavada”.

A relação de carinho e admiração com o Garoto:

“Quando ele voltou [o Garoto], mais tarde, o velho Santiago estava dormindo e o sol já começava a baixar no horizonte. O garoto foi buscar a manta da cama e colocou-a sobre os ombros do velho. Era ombros estranhos, ainda poderosos, embora muito velhos, e o pescoço também era ainda muito forte”.

Conforme a história avança, acompanhamos o Velho adentrar no mar, numa solidão ainda mais profunda, exacerbada pela descrição do imenso mar.

Até o encontro com o peixe gigante.

A luta com o peixe é descrita de forma direta, mas pormenorizada. O detalhamento e o ritmo constroem em nós, leitores, o mesmo cansaço sentido pelo Velho. É uma luta não só de força, mas de paciência. E a escrita revela isso em sua forma.

O respeito do Velho pelo peixe gigante capturado, revela uma personalidade nobre dentro da simplicidade. Desse respeito, faz nascer em nós respeito pelo Velho. Passamos a torcer ainda mais por ele.

Quando, enfim, o peixe capturado passa a ser assaltado por tubarões, sentimos a frustração do velho em nossa própria pele quando ele luta com o pouco recurso que tem para espantar os predadores. Conforme vão diminuindo suas ferramentas, sentimos diminuir em nós a esperança de que ele terá sucesso.

Sem nunca usar a palavra “raiva”, Hemingway desperta em nós esta emoção.

Veja, Hemingway constrói dentro de nós sentimentos e empatia sem nunca pedir por eles. Ele conquista esses sentimentos e empatia pela forma pura da história.

Sou particularmente afeita do realismo psicológico. Gosto de escrever usando o recurso do fluxo de consciência dos personagens. Hemingway é o oposto disso. Ler Hemingway, para mim, é como mergulhar num mundo completamente novo.

Numa história simples, a grande complexidade humana

Não é apenas o estilo de escrita de Hemingway que me impressiona. Sua capacidade de fazer muito com pouco está também na temática.

A história de O Velho e o Mar é simples: o velho pescador, há 84 dias sem pescar nada, pesca o maior peixe de sua vida, mas acaba por perdê-lo para os tubarões. Termina derrotado.

No entanto, desta simples premissa, ele extrai uma profusão de dilemas essencialmente humanos:

  • Pode o homem superar as forças da natureza?
  • Como é mergulhar num estado de absoluta solidão? O homem é capaz de vencer sozinho?
  • Existe vitória na derrota?

Talvez haja muito mais questões além destas. Certamente há. Quaisquer que sejam, nos instigam ao debate existencialista:

Qual o sentido da existência quando somos confrontados com nossa imensa pequenez? Como existir em completa solidão? Por que persistir mesmo quando a derrota é certa?

Ao final, quando o Velho rende-se à derrota, não pude fazer nada senão chorar. Porque o retrato que resta do Velho, é um espelho de perguntas que habitam e assombram todos nós. Perguntas que evitamos encarar nos olhos.


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