Nem todo divórcio acontece de uma vez. O nosso foi parcelado: separamos e reatamos — depois o contrário; o avesso; o reverso. Entre tantas idas e vindas, fiz e desfiz malas infindáveis, até que o pragmatismo se fez necessário. A bagagem, reduzida ao essencial. Passei a carregar tão somente minha Árvore da Felicidade.
Não sei ao certo porque ela me era tão preciosa. Sentada no banco de passageiros, eu pegava a rodovia da vida passada e, mesmo em seu silêncio indecifrável, sentia-me acompanhada. Dentre meus pertences, era o único que respirava, então intuía que também ouvia. Desejava, naquela solidão, que sentisse como meu próprio sangue corria: ora triste, ora enraivecido, ora sereno.
Havia nela um tanto daquela história rachada. Árvore da Felicidade deve ser composta de duas mudas: um macho e uma fêmea. A minha nunca vingou como dois. O macho morreu. E por mais que eu tentasse plantar outro, ele sempre definhava.
Às vezes me perguntei se era a fêmea que roubava a vida do macho; ou o macho que não queria estar ali. Como se a Árvore guardasse o segredo do que fez ruir o meu feliz-para-sempre. Nunca soube. Ela era ótima ouvinte, mas péssima oradora. Falava pelo vento.
Foi ouvindo esse vazio que compreendi: a Árvore da Felicidade não era incompleta — sempre fora inteira, ainda que feita de um só. Nunca pediu conserto. Apenas água e cuidado. Existia satisfeita em seu silêncio.
No começo vi sua persistência como solidão. Depois entendi que a incompletude estava apenas em meus olhos. Fiz dela meu espelho. Aprendi a regá-la como quem rega uma esperança modesta: não a de reencontrar completude, mas a de aceitar que a vida floresce também na falta.
Montei um jardim que, no início, se encheu de flores roxas, amarelas e vermelhas. Logo, também de novas amizades. A Árvore da Felicidade ganhou um novo lar: o lar que construí de sonhos singelos — sem a ilusão do feliz-para-sempre, mas com a gratidão pelo instante: a visita de uma borboleta, o zumbido de uma abelha, o café com uma amiga, o riso de uma mulher livre.
Hoje, quando olho para ela, entendo porque insisti em carregá-la. Eu não sabia, mas pressentia. Ela sempre foi o mergulho no que nunca vou entender. E o não compreender, descobri, também é forma de estar em paz.
Jéssica Marcon Dalcol
Deixe um comentário