Eu não sei bem o que sou. Queria saber, afinal, já estou aqui há muito tempo, cumprindo servilmente meu papel, sem nunca reclamar. Há uma década. Muito tempo para quem pode se espatifar a qualquer momento e virar apenas fragmentos do que foi.
Minha epifania veio com o divórcio. Estive com ela no seu antigo lar, quando ainda morava com aquele homem de mãos frias e desajeitadas. Quase me derrubou diversas vezes, mas o acaso me salvou todas. Sim, ele me requisitava vez ou outra, mas quando se separaram, fui encaixotada e despachada para o novo lar… dela, e não dele. Isso me fez pensar: Sou dela, não dele.
Até então, sentia-me apenas uma caneca amarela. Agora me coça, em minha superfície cerâmica, essa sensação de ter me tornado um tipo diferente de caneca. A caneca que é dela, e não apenas, caneca.
Talvez seja um anseio de escapar à mediocridade. Veja, canecas são itens intrinsecamente medíocres: Nem comuns como copos, nem raras como taças. Podemos tentar nos diferenciar com alças artísticas e estampas divertidas, mas ninguém realmente liga. Taças acumulam poeira nas prateleiras, mas vivem seguras. Copos vivem se rachando e quebrando pelo muito uso. Já nós, servimos cafezinho até enjoarem e sermos esquecidas.
Quero me sentir algo mais. E o primeiro mais que senti, foi o ser dela.
Fico aqui pensando, com minhas pequenas trincas. Quando se é caneca, há muito tempo para se pensar, guardada no armário, esperando o frio do inverno. Talvez sejamos todos assim: guardados até que precisem de nós; úteis até que nos substituam. Me estarrece que o esforço de nascer do barro e ser queimada a 1.200ºC, possa valer pouco — mas se até eles podem ser usados e devolvidos…
O que me ocorre é que não deveria ser vista apenas como propriedade, mas também como proprietária.
Veja, quando ela decidiu me carregar nas caixas da nova casa, me imbuiu também de história. Passei a ser caneca que um dia foi casada, mas que agora é divorciada. Então, digo com a certeza e a firmeza de meu corpo de barro queimado: sou também pedaço da história dela. E pedaço de história, é a própria história.
Então, penso que sou, sim, mais que uma caneca amarela. A caneca amarela que é dela, e também dona de parte dela.
Isso já não deveria me fazer saber quem sou? Gostaria que fosse tão simples.
Quantas canecas amarelas existem no mundo que também se transmutaram em caneca de mulher e, depois, no registro material de um casamento falido? Me aflige, porque se até pessoas amadas se tornam comuns quando deixadas, que dirá uma caneca? E se todos esses atributos a que me apego — ser amarela, ser dela, ser história dela — não forem nada senão a ilusão ter um significado?
Pode parecer vaidade de querer sentir-me maior que minhas colegas. Não me entenda mal. Não é bem isso.
É que se eu for esse tanto mais que gostaria de ser, me sentiria amada. Sentiria que quando ela me escolheu para pôr nas caixas do que decidiu ser seu, o fez com a consciência de que eu era especial. Sentiria que quando me selecionava entre as outras canecas do armário, é porque realmente me queria, e não apenas porque sirvia para um ínfimo momento. Sentiria que o roçar de seus lábios quando me bebia, eram beijos, e não a casualidade da minha utilidade.
Talvez, no fundo, não seja que eu queira saber quem sou.
Queria encontrar algum acalento, pois novamente estou numa caixa.
Entre roupas velhas e objetos esquecidos, me pergunto: fui especial ou apenas útil enquanto durou?
É uma caixa de descarte.
Jéssica Marcon Dalcol
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