Compartilho com vocês minha crônica “Glória e sua Abóbora”
Já contei que tenho uma avó chamada Glória? Para ser mais exata: Maria da Glória.
Minha bisavó queria nome divino. Só “Maria” — a própria mãe de Deus — não bastava. Acrescentou o “da Glória”. Não é qualquer palavra. É aquelas que rompem a película entre o mundano e o Divino, carícia aos ouvidos de Deus.
Vó Glória herdou esse gosto por escolher nomes. Mas para ela, não bastava nome profético. A atraía outro tipo de liturgia. É que os nomes que ela queria, não existiam. Talvez fosse o sangue mineiro e sua criatividade lexical. Mas talvez… fosse algo mais.
Misturou os nomes que gostava.
Se sua mãe podia misturar Maria com Glória, ela podia juntar:
Gil com Roberto, nascendo Gilberto;
Isadora com Mara: Izamara;
Tarsila com Isabela: Tarciza;
Alexandra com Alessandra — difícil escolher entre o “x” e o “s” —: Alexsandra.
Crescida, minha mãe não ficou muito feliz com o método. Ganhou o “Tarciza”. Adolescente, aprendeu a duras penas que ninguém entendia. Tarsila? Marisa? Estava fadada a soletrar. Já adulta, dizia que não tinha um nome — mas uma senha.
Senha poderosa, pois mamãe tinha o dom de abrir portas. Mamãe deseja; luta; conquista. Se foi o batismo, quem sabe.
Vó Glória nunca ligou para as objeções. Nomear, para ela, não era designar. Era chamado inaugural. Não descrevia o mundo — o criava.
Como quando abriu a lojinha de roupas. Aplicou o método sobre o método. Conjugou num mesmo labirinto de fonemas todas as suas criações. Do metamétodo, a loja: “Alextarizagil”.
Diziam ser trava-língua. Para mim soava como encantamento — talvez fosse mesmo, pois a loja faliu, mas persistiu nos causos de família pelos risos do título absurdo.
Eu ouvia e me perguntava: que poder era esse? Fazer existir para além da materialidade? Manter vivo o que já acabou?
Minha epifania veio quando fui visitá-la. Vó Glória me mostrava seu jardim.
Temos em comum o gosto pelas flores. Na verdade, copiei isso dela. Também queria viver entre pétalas.
Mas comecei a copiá-la antes.
Meu nome é “Jéssica”, mas bebê, insistia: meu nome é “Keka”. Tanto insisti que cederam. A neta da nomeadora escolheu o próprio nome.
No entanto, no dia da visita eu estava cansada dessa herança. Inventar se tornara fardo. Entrara na vida adulta desavisada: o mundo fora do dicionário pode ser mal interpretado.
Quando a gente cresce, definha a liberdade poética. O corpo adulto é maior, mas ainda não cabe a infinitude da mente. Normatizada pelo imperativo de ser racional.
Sentia-me desencaixada. Diziam que eu gostava de coisas demais; colorida demais; entusiasmada demais. “Jéssica” e não “Keka”.
Caminhávamos devagarinho. Ela com sua bengala de anciã; passos trôpegos, pernas cansadas. Eu, pernas joviais, mas igualmente casadas pelo peso de dúvidas. Queria chamar meu gato de “foforoso”, não de fofo; “medonícia” para o medo delicioso; “únivero” para o universo que apesar de infinito, é único.
Chegamos a um vaso grande de cimento, muito pesado.
No formato de cálice, fora pintado à mão. Pintura imperfeita. Pinceladas despretensiosas, mas calorosas.
— Sabe, Kekinha? Sempre que via esse vaso de cálice, enxergava outra coisa. Uma abóbora.
Toquei o vaso. A superfície gélida contrastava com o laranja sorridente.
— Então… pintei de abóbora.
Gargalhei. Vó Glória não entendeu, mas riu junto.
Achei graça em conhecer outro dom de vovó. Não ver o que a coisa é, mas o que pode ser. Revestir de intenção. Libertar da função e criar depositário do imaginário.
Olhei em volta. Suspirei, contemplando as paredes rosa bebê. Vó Glória gosta desse rosa, tanto quanto de bonecas. Tanto fez, que mandou pintar o casarão antigo. Vive numa casa de bonecas.
Mais tarde, sentada no banquinho vienense, senti o turbilhão do peito assentar-se.
Vó Glória não se encaixava no mundo. Entre abóboras e casas de boneca, não cabia na gramática, nos vasos unicolor, nas casas minimalistas.
Vó Glória planta. Pinta. Inventa.
Nasceu de minha bisavó e seu olho divino; pôs no mundo minha mãe e sua senha de mil portas. Eu vim na rabiola dessa pipa que busca nas nuvens jeitos livres de ser.
Decidi que meu caminho é pintar minhas abóboras e minhas casas de bonecas.
Desencaixada.
Palavras estranhas, pinturas risonhas, mundos inventados.
Assim posso inventar a mim mesma.

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