As Duas Bibliotecas da Cidade (miniconto)

Havia duas bibliotecas na cidade. A Biblioteca de Verdade guardava os livros verdadeiros; a outra, Biblioteca dos Desejos, guardava os livros do que preferíamos que fosse.

Na Biblioteca da Verdade, prateleiras cheias de enciclopédias com os fatos históricos indubitáveis, registros imutáveis do passado; obras exatas dos autores, publicações inteiramente originais; mapas topográficos, temáticos e celestes alinhados ao consenso científico, exibindo cidades, Estados, países, estrelas e constelações.

Tudo que havia na Biblioteca da Verdade existia também na Biblioteca dos Desejos — com apenas uma diferença. 

Na outra: enciclopédia, livro ou mapa, não importa, se ajustava ao que o leitor queria ver. Podiam bem coincidir em tudo, tanto quanto um ponto final virar interrogação, um terror virar romance ou uma fronteira encurtar, esticar, sumir.

Todos os habitantes da cidade diziam frequentar a Biblioteca da Verdade, ainda que muitos vão numa e tantos outros, na outra. Nunca saberemos.

Elas não têm placas. São fachadas sem nomes.

Jéssica Marcon Dalcol

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