Reflexões sobre “3 Obás de Xangô” (Documentário)

Sobre o poder da arte para retratar um povo

Acabei de voltar do cinema e estou encantada.

O documentário “3 Obás de Xangô” acompanha três artistas: Jorge Amado (escritor), Dorival Caymmi (cantor e compositor) e Carybé (pintor). Mostra como os três – e suas ricas amizades – contribuíram para a construção do imaginário do que é o Brasil da Bahia.

Contudo, o documentário tem uma sensibilidade e argumento tão bem construídos, que vai muito além.

Três faces da arte: Literatura, Música e Pintura

Salta aos olhos o mais evidente: o retrato da Bahia pelo olhar do escritor, do músico e do pintor. Essa multiplicidade de formas de olhar, por si só é riquíssima.

Jorge Amado, um dos maiores romancistas modernos brasileiros, é reconhecido por retratar a Bahia com histórias carregadas, ao mesmo tempo, de crueza e poesia.

Trecho de uma entrevista dele próprio resume bem a humanidade e sagacidade de seu olhar: “Lá veio um crítico querendo me diminuir. Diz que eu não passava de um romancista de putas e vagabundos. Nunca ninguém me fez um elogio maior”.

Dorival Caymmi, por sua vez, cantor, compositor e instrumentista. Quem nunca ouviu o saudoso “O que é que a baiana tem?” na voz de Carmen Miranda? Suas letras e jeito de cantar incorporavam a vida das ruas do pelourinho.

Por fim, o retrato visual pelas cores e pincéis de Carybé. Obras que percorreram o Brasil e o mundo, dando não só forma, mas movimento ao cotidiano bahiano.

O documentário une essas três faces de forma fluída e envolvente. Nos faz sentir imersos no coração criativo de alguns dos principais patriarcas da arte da Bahia.

Para além: o elo das artes pela amizades e religião

Esse esforço já seria rico por si só. Mas vai além.

O título “3 Obás de Xangô” já denuncia que o laço entre as três figuras é mais profundo do que a natureza de suas obras. Fala também sobre a humanidade deste elo.

Humanidade esta marcada por duas das talvez mais humanas forças humanas: a amizade e a fé.

Durante todo o documentário, vemos como a camaradagem entre os três artistas era genuína, retroalimentando um sistema próprio de criatividade e apoio. A arte de um, alimentava a arte do outro.

E dentro da amizade, um segundo laço: a religião.

Figuras eminentes na Bahia, marcantes por seu papel no enfrentamento do racismo religioso, foram eleitos Obás de Xogum.

Embaixadores do candomblé enquanto espaço de luta social. Tanto que Jorge Amado, quando deputado, foi o primeiro a criar uma lei para garantia de liberdade religiosa, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos.

O documentário mostra essa amizade e religiosidade com o olhar de quem está dentro e não fora. Nos sentimos parte, sem aquele olhar repugnante de “safári” muito frequente em obras que se propõe a mostrar cenário não-eurocentrados.

É como um “Paris é uma Festa” dos trópicos – e muito melhor!

“Paris é uma festa” é uma obra do escritor Hemingway que mostra a vida artista e bohêmia dos escritores norte-americanos dos anos 20, deslocados para Paris. Adaptado para o cinema por Woody Allen em “Meia Noite em Paris”, sentimos como a relação entre os escritores alimentava suas obras.

O documentário “3 Obás de Xangô” garrega esta aura de “Meia Noite em Paris”, porém com o ar bohemio da Bahia dos anos 30.

Nas cenas esparsas, vemos flashs de Gilberto Gil e Caetano Veloso frequentando os encontros e festas dos três artistas, além da comunidade do candomblé e o próprio povo das ruas.

Talvez pela beleza, calor e riqueza da cultura bahiana – a meu ver – é muito mais cativante.


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *