A carapaça da cigarra repousava no tronco. As costas abertas na promessa de nova fase. O corpo rígido – tão científico que soa poético: exoesqueleto – não comportava o crescimento. Se rachou para o adulto caber no mundo.
Daquela pele abandonada, no entanto, nasceu algo estranho: um homem que cantava o tempo.
Sabe-se que a cigarra cresce para cantar até morrer. No intuito de atrair a fêmea, aciona também o temporizador de sua existência. O homem-cigarra cantava este tempo que pinga. Mas sem a esperança de amor, era sinfonia da finitude.
Deveria evitar cantar. Quanto mais o fizesse, mais próximo estaria do fim. Contudo, era inevitável. Cantar era seu chamado. O puro contrassenso: o que o mataria era o que o mantinha vivo.
Decidiu, então, desafiar o presságio mórbido. Convidou o homem-grilo para a guitarra, o homem-gafanhoto para o baixo e o homem-besouro para a bateria.
A banda de rock psicodélico encantava humanos e insetos. De certo isso levou à matança: nos shows, tapas e pisoteios. Os grandes, que pouco relevavam que os minúsculos de seis patas contavam com sistema nervoso – e preferiam as cervejas ao debate da consciência da dor em habitantes de jardins – logo aderiram a inseticidas.
Com peso na consciência o líder, homem-cigarra, determinou que se restringiriam aos streamings de música.
Fato é que driblou o destino. Viveu apenas seis semanas. Mas suas músicas perduram nas plataformas por décadas.
Os camaradas da banda celebraram seu velório com gotas de orvalho. O baterista, que preferia devorar os vivos, abriu exceção e devorou o corpo inerte ao som do refrão de seu maior sucesso: Morrer é para todos, viver é para poucos.
Jéssica Marcon Dalcol
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