Qual o valor da arte? Reflexões em Kafka e seus contos

Três contos de Kafka instigam debate profundo sobre o valor da arte na sociedade industrial moderna

Qual o valor da arte? Pergunta de muitas eras e objeto de muitas áreas: filosofia, antropologia, economia, sociologia.

Me intriga a profundidade das provocações de Kafka em três contos: Um Artista da Fome, Josefine, a cantora ou O povo dos ratos e Primeira Dor¹.

Arte como trabalho

Em Josefine, a cantora ou O povo dos ratos vemos uma metáfora da arte na sociedade industrial moderna, na qual tudo gira em torno do trabalho.

O povo dos ratos vive em função da sobrevivência, organizada em torno de tarefas essenciais como a busca por comida e vigilância de perigos. O valor está na utilidade e no alinhamento à necessidade coletiva.

Josefine é o rato que canta (ou assobia, que seja). Vê valor em sua expressividade e acredita no seu impacto social — uma representação do artista moderno.

No entanto, o narrador-rato oscila entre a apreciação e o mero tolerar. Sua paciência vai se esgotando diante das demandas de Josefine: que ouçam, que reconheçam o impacto de seu canto. Extrapola quando exige que a arte seja encarada como trabalho. É como a petição de um privilégio. Reconhecem que o que faz é diferente, mas não especial ou essencial.

Num mundo produtivista, a arte se torna capricho. Não é transcendência ou expressão, mas distração ou ruído.

Arte como mercadoria

Em Um Artista da Fome a arte é engolida pela espetacularização.

O artista vive numa jaula expondo seu jejum. O empresário atualiza a placa com a contagem de dias, pessoas tentam o artista a comer, vigilantes fazem vigília para garantir que não come à noite. Encontra valor não pelo que expressa, mas na distração e no rendimento que gera.

O espetáculo atrai grande público, mas ao longo dos anos, se cansam e perdem o interesse. É vendido e esquecido numa jaula dos fundos de um circo. Segue a mesma curva dos produtos: a curiosidade, a saturação, o descarte.

No circo vai definhando até a morte — com poucos visitantes desviados do verdadeiro espetáculo: a pantera, voraz, da jaula ao lado. Um retrato mórbido da arte enquanto privação e sofrimento, com a auto e subexploração do artista.

A arte vira indústria, convertendo-se em mercadoria. Funciona dentro da lógica da espetacularização e mercantilização.

Arte como escapismo

Em Primeira Dor nos deparamos com a arte como recurso de escapismo.

O trapezista que nunca desce das cordas é a expressão daquele que mergulha na arte e esquece-se do mundo. A busca pelo perfeccionismo é a desculpa para viver distante dos incômodos da imperfeição da vida.

Conforme envelhece, é inquietado pela necessidade de um segundo trapézio. Um novo escape.

Mas a nova demanda vem com uma dor que não some mesmo com a demanda atendida. É o dar-se conta de que é impossível fugir da realidade, onde sempre existirá dor e desconforto.

A arte como escapismo é subterfúgio temporário. A realidade é inescapável.

A inteligência das escolhas de Kafka

Kafka não é certeiro apenas nas provocações, mas também na escrita. As metáforas são perfeitas para cada conflito e argumento. Não esperaria menos daquele que escreveu A Metamorfose e O Processo, mas vale justificar meu por quê.

Ao falar sobre arte e trabalho, cria uma sociedade de ratos. Um retrato massacrante do humano que é desumanizado pela necessidade de dedicar-se exclusivamente à sobrevivência, com a padronização de comportamentos e escolhas.

Quando retrata a espetacularização e mercantilização da arte, leva os conceitos ao extremo, com um absurdo (o artista que espetaculariza o jejum) que só pode levar à morte. A escolha das imagens é, por si só, um argumento: a arte como mercadoria está fadada a morte.

Em seu retrato do escapismo, o conceito é imagético: o trapezista que nunca desce, vive fora da terra, sem nunca pôr os pés no chão. Está acima de tudo e de todos, sem nunca interagir com a realidade do mundano.

Os textos podem parecer arrastados ao leitor apressado. Mas, a meu ver, devem ser vistos como uma experiência contemplativa — como a própria arte.


¹O compilado desses contos pode ser encontrado no livro Um Artista da Fome seguido de Na Colônia Penal & Outras História (Coleção L&PM Pocket volume 790) da Editora L&PM Pocket. Disponível aqui (este não é um link patrocinado, apenas um facilitador).


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