Compartilho aqui minha redação Do Inferno para o Céu, escrita na proa de vestibular e premiada com publicação em livro da Unicamp em 2008.
Noite serena; o céu, tomado pelas luzes da cidade, as invejava. Queria exibir suas estrelas, mas os pontinhos luminosos lá embaixo não as deixavam aparecer. Um jovem solitário, à janela de um apartamento, observava a lua. Queria pegá-la. Debruçou-se sobre o parapeito e esticou os braços: não a alcançava. Insistiu até sentir a mão deslizar em falso e, assustado pelo perigo da própria queda, virou as costas para a janela. Deparou-se com o cômodo escuro; apenas um abajur aceso no centro, proporcionando sombras psicodélicas ao redor. Demônios com as mais diversas faces escondiam-se, corriam, dançavam, enquanto os móveis tomavam formas estranhas. Sentiu o braço arder: era a seringa, há pouco usada a fim de encontrar mais uma vez aquele mundo, ainda espetada nele.
Seus olhos vagavam perdidos em meio àquelas ilusões quando, subitamente, deparou-se com o retrato de sua avó – na verdade, mãe, pois fora ela quem o criara desde a morte dos pais. Suas feições sorridentes derreteram, convertendo-se numa expressão macabra, de luto. E por que sorriria? Ali era o inferno; a morte envolvia o jovem neto , tomava seu corpo aos poucos com o que, nós mortais, chamamos de vírus. De repente, vozes. O jovem, dominado por horror, encolheu-se no chão e por entre as mechas de seu cabelo negro jogado ao rosto, viu as criaturas demoníacas a encará-lo, dizendo “ninguém mandou usar drogas”, “se tivesse ouvido sua avó”, “Aids? É merecido, seu drogado! Tá aí seu prêmio por…”. “Chega!”, gritou o garoto.
Sentia-se cansado. Cansado pela fadiga gerada pela doença, diagnosticada há alguns meses e, principalmente, cansado de sua solidão. Arrependera-se, mas o vício era mais forte do que ele e mais forte ainda era o preconceito vivido após contrair Aids. Pagava seus pecados através da doença e pelos olhares alheios a condená-lo, a contemplar sua desgraça como merecida. E não suportando toda a condenação, recorria à seringa novamente. “Cadê a seringa?”, Encontrando-a, injetou novamente a droga. EM sua circulação, condenação e morte corriam juntas.
Agora sim. O mundo já não era tão obscuro, a cabeça não pesava, o coração não se remoía. Vovó sorria. Ele sorria. Os demônios transformaram-se em borboletas multicoloridas e anjos, muito brilhantes. “Será que vieram me buscar?” Apesar de todos os condenarem, queria ir para o céu. E por que não iria? É tradição a humanidade atribuir ao doente a culpa de seus males, fazer o inferno aqui e agora, além de garanti-lo para amanhã, após a morte. Mas e Deus? Seria assim tão mau? Incompreensível? Claro que não! Até lhe enviara anjos! Com certeza o Senhor, criador dos céus e da terra, teria piedade. Teria de ter! Afinal, tirara-lhe os pais, desolara-o e o fizera infeliz. Merecia um céu, enfim. O céu…
Voltou-se novamente à janela, a qual enquadrava o paraíso ali, tão perto. Lembrou-se da namorada, a quem amava tanto. Ela o deixara após saber da doença. Era uma moça linda; olhos escuros, lábios grossos. E gostava da lua. Quando fosse para o céu, daria um jeito de lhe enviar a lua numa caixinha de presentes. Quem sabe assim voltasse para ele, quisesse ir para o céu também. Daí poderia até conhecer seus pais! Ah, como eram bons seus pais. Amava-os tanto, tanto. Enfim, depois de tanto tempo, iria revê-los.
Debruçou-se novamente sobre a janela. Aquele céu prometia-lhe tantas coisas, tanta felicidade, e até estrelas. Inclinou o corpo à frente. E lá estariam seus pais e até Deus, os quais não o condenariam, o deixariam em paz. As mãos deslizaram. Só que dessa vez não foi em falso. Ele foi atrás do seu céu, e seus anjos o seguiram. Era uma noite muito, muito serena.

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