O que aconteceu?, perguntou o ortopedista. Respondi: desacato divino. Desinteressado em confissões pecaminosas, restringiu-se a pedir um raio x. Consumado: debaixo do osso do meu calcanhar nascera um bico ósseo. Esporão calcâneo é o nome científico, mas dada a sensação de estar sempre a pisar num prego, eu chamaria de autoflagelo biológico.
Lembro do fatídico dia. Na tela do celular: “Arrume-se para a academia crente com estilo!”. O alongamento das pernas que deveria durar poucos minutos, tornou-se meia hora de divagação pela tela. “Look gospel”, “Moda crente”, “Visual esportivo modesto”. Não ri por maldade! Eu era a própria caricatura do desvio: pronta para a corrida matinal vestida com meu cropped decotado e mini shorts coladíssimo às nádegas.
Mas eu não ria do Senhor, meu Pai! Quem sou eu para questionar Seus métodos? A gargalhada veio desenfreada, um tanto por ser pega de calças curtas (bem curtas), outro tanto porque estava desatualizada sobre a Fé contemporânea. Não sabia que as orientações celestiais chegam por meio de marcas de nicho, influencers e anúncios publicitários. Entenda, não foi maldade, só ingenuidade de quem dormiu — pouco, juro! — nas aulas de catequese…
Iniciada a corrida decidi fazer o que nunca faço: ir pela calçada, ao invés da ciclofaixa. Bem podia ser sugestão do diabinho montado no ombro esquerdo. Mas em circunstâncias profanas, é alinhamento de estrelas. No caso, desalinhamento. Pois a calçada desnivelada me fez tropicar, bater o pé com a força de Golias e cair com tamanho impacto, que a vista escureceu. Sem enxergar agradeci os transeuntes aglomerados que me deram água e uma paçoca — devorada mesmo sem entender por que, afinal, não se recusa paçoca.
Quando a ambulância chegou, a vista voltou e entendi o alvoroço: minhas pernas estavam destruídas, devoradas pelo chapisco. O socorrista me perguntava se bati a cabeça. Até hoje não sei, pois só sabia olhar a pele arrebentada e pensar: Se estivesse com look crente, não teria me esfolado esse tanto.
E eis aí meu erro final — ou quase, como verá: O pensamento que deveria ser ensinamento final, de certo a moral desta crônica… me fez cócegas. Gargalhei ainda mais alto.
Mas Deus, este é meu jeito de aprender! Não foi chacota ou sarcasmo… Não como a vez que li sobre a exposição fotográfica dos melhores nomes de igrejas evangélicas. “Igreja Mocotó com Jiló”, “Igreja Deus Peleador Salgando o Lombo do Diabo” e — deveras um teste a todas mentes pouco cândidas: — “Igreja Unida de Caracóis de Baixo”.
Pensava nisso tudo quando, redimida, retomei os treinos agora, sempre, na ciclofaixa. Li, então, a placa recém colocada pela Prefeitura: “Proibido pedestres”. Deveria ter ligados os pontos; intuído a mensagem: pecou também quando riu das placas. No entanto, besta que sou, ao invés de ouvir de vez a reprimenda divina, comprei um canetão:
“Enquanto as calçadas forem dos buracos, as ciclofaixas serão dos pedestres”.
Ali, dias depois do incidente original, nasceu o esporão.
Agora no médico, pergunto: “E qual o tratamento, doutor?”. Recebo folhas com recomendações de anti-inflamatórios, palmilhas ortopédicas e algumas dezenas de sessões de fisioterapia. Para tristeza de meu bolso, nada coberto pelo plano de saúde.
Logo penso na placa. Lembro que usei caneta permanente e, num só Google, descubro que a multa por pichação é de 3.300 reais. Antes que a catarse sagrada continue, decido: ao lado de minha bravata, melhor me redimir de vez e escrever “Deus é bom”. Sem nenhuma risadinha.
Jéssica Marcon Dalcol
Deixe um comentário