Qual o valor do Prêmio Nobel de Literatura?

A premiação é de 11 milhões de coroas suecas (~R$ 5,3 milhões). Mas não é sobre este valor que quero falar — qual o seu valor literário?

A cada edição do Prêmio Nobel de Literatura se inflama o debate do seu real valor: é apenas “simbólico”, “um lobby”, “elitista”, etc.

A meu ver, é outra coisa: sintomático.

Explico.

Validação institucional do que tem valor literário

Não acho que o Prêmio venha para que instituir que um autor é “melhor” do que o outro. Todo ano, autores extremamente competentes são cotados e seria impossível classificá-los desta forma.

A literatura não cabe em categorização ordinal. Fala de expressividade, forma, história. E não existe um que valha “mais” que outro.

No entanto, é possível sinalizar os valores de uma época.

O vencedor deste ano é o mais puro exemplo disto:

Laszlo Krasznahorkai é reconhecido por desafiar a forma e o pensamento.

Além disso, suas temáticas de tom apocalíptico ressoam com nossos tempos de ameaças ambientais, políticas e até bélicas.

Em nada quer dizer que seja melhor que os demais favoritos.

Neste caso, reforça que, mesmo com o avanço da indústria de livros comerciais, ainda há espaço para obras que não buscam ser devoradas, mas provocar reflexão e desconforto.

Emblemático: Bob Dylan, vencedor em 2016

Caso representativo é Bob Dylan e sua premiação em 2016 “por ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana”.

Muitos indignaram-se, julgando desrespeito a escritores poderosos como o então favorito Haruki Murakami.

A meu ver, não se trata de Dylan ser melhor que Murakami ou qualquer outro, mas de uma ampliação do que se entende por literatura — um gesto disruptivo que reconheceu as letras musicais como produção poética e transformadora de seu tempo.

As letras de Dylan remetem ao movimento beat que, na era modernista, foi um contraponto à sociedade materialista e conservadora, além de evocar pacifismo, espiritualidade e liberdade.

Ainda tem defeitos, mas…

Evidentemente, tudo isso não isenta o Nobel dos males de nosso mundo. Sendo dirigido pela Academia Sueca, na Europa, por eras predominaram vencedores homens, brancos e europeus.

Deve sim ser criticado por isso.

No entanto, isso dá ainda mais peso a movimentos de premiações fora deste circulo.

Vencedores não-europeus indicam o poder da arte na quebra do pensamento eurocêntrico dominante: Gabriel García Márquez (Colômbia), Toni Morrison (EUA), Abdulrazak Gurnah (Tanzânia), Mario Vargas Llosa (Peru), Han Kang (Coreia do Sul) e Gao Xingjian (nascido na China, residente na França)

Vencedoras mulheres dão força não só na literatura, mas à luta feminista como um todo: Selma Lagerlöf (Suécia), Nelly Sachs (Alemanha), Gabriela Mistral (Chile), Nadine Gordimer (África do Sul), Toni Morrison (Estados Unidos), Svetlana Aleksiévitch (Bielorrússia)

Vencedor negros representam uma vitória não apenas artista, mas também antirracista: Wole Soyinka (da Nigéria), Naguib Mahfuz (do Egito), Nadine Gordimer (da África do Sul), John Maxwell Coetzee (da África do Sul), Abdulrazak Gurnah (Tanzânia).

Ressoa em outros Prêmios

Não sou professora nem pesquisadora — apenas uma entusiasta da literatura. Talvez, por isso, minhas opiniões pouco importem.

Ainda assim, arrisco um pitaco: o mesmo problema se repete em outras premiações literárias, inclusive brasileiras.

Recentemente, um cronista que admiro manifestou num post sua indignação com os finalistas da categoria “crônica” do Prêmio Jabuti. Ele apontou algo grave: há anos as escolhas destoam do que realmente caracteriza o gênero.

E isso não é pouca coisa.

A crônica, tal como a conhecemos, é uma forma especialmente brasileira — construída por mestres como Machado de Assis e Lima Barreto, que traduziram o espírito do país.

Apesar disso, é comum vermos antologias de aforismos ou diários sendo nomeadas na categoria.

Quando o principal prêmio literário do país confunde o que é crônica, revela algo sobre o nosso tempo: a desvalorização de textos que transformam o cotidiano em literatura, misturando observação, reflexão e emoção diante do banal.

Fica a pergunta: há um esforço consciente em reformular o conceito contemporâneo de crônica?

Talvez. Mas a escolha de certos jurados parece indicar o contrário — afinal, Leandro Karnal e Ronaldinho Gaúcho¹ têm méritos, sim, mas em outras áreas.

Espaços de eterna disputa

As premiações literárias são, e sempre serão, espaço de disputa.

Não entre os escritores cotados, mas dos valores da comunidade literária.

Por isso acredito na importância e mérito desses prêmios. Pois até mesmo suas falhas falam sobre nosso tempo.


¹Ronaldinho Gaúcho não foi jurado do Jabuti — é uma piada com a piada: Ronaldinho Gaúcho é famoso, dentre tantos motivos, por estar em tudo quanto é evento aleatório. Aviso aqui pois de certo nem todos entenderão a piada.


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