As Verdades de meu Pai (crônica)

Papai dizia à minha irmã que cada pessoa faz xixi de uma cor. Azul, verde, lilás — arco-íris a vazar dos corpos. Ela acreditou até o dia em que levou um tabefe. Ele também ensinara a falar pão “cascudo”; afinal, “pão francês” é demasiado blasé. A amiguinha, excessivamente literal, não perdoou: em vez de pão, deu-lhe o cocorote.

Do espanto nasceu a desconfiança. Arrastou as colegas até o banheiro. Iluminou-se prostrada diante do trono de louça barata: tudo tingido do mesmo amarelo.

O psicanalista diria que ali morreu o pai simbólico. O poeta se lançaria em versos: no meio sorriso, a morte de um mundo, o nascimento e outro. A cronista, que por acaso sou eu, gosta de pensar que papai sabe cultivar histórias de longo prazo. Planta a semente para colher anos depois — a piada cujo riso é pago à prazo.

Os excessivamente sensíveis se revoltarão: foi trapaça! Mas é preciso distinguir entre a mentira e o encanto.

O tempo é implacável. Ensinaria biologia e cardápios de padaria. Papai fazia era postergar a padronização da vida. Criar pequenos véus de fábula, como quem diz: a verdade nua pode esperar para que a magia possa viver.

Crescer tem esse tanto de amargura salpicada de beleza. Contorce a boca pelo brilho que se esvai. Mas permanece a sensação de ter vivido num reino particular mais colorido.

O xixi não tem cor, o pão continua francês. Ainda assim, minha irmã cresceu e compartilha com os amigos suas anedotas. O riso a prazo de papai ainda rende juros.

Jéssica Marcon Dalcol


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